9. PROTEÇÃO DA EQUIPE DE SAÚDE

9.1 - BARREIRAS PESSOAIS

Art. 36 da Res.15, de 18-1-99: Os estabelecimentos de assistência odontológica devem possuir os seguintes equipamentos de proteção individual: luvas para atendimento clínico e cirúrgico, que deverão ser descartadas após o atendimento a cada paciente; avental para proteção, máscaras de proteção; óculos de proteção e gorro.

Barreira Pessoal

9.1.1 - LUVAS

Sempre que houver possibilidade de contato com sangue, saliva contaminada por sangue, contato com a mucosa ou com superfície contaminada, o profissional deve utilizar luvas. Embora as luvas não protejam contra perfurações de agulhas, está comprovado que elas podem diminuir a penetração de sangue em até 50% do seu volume. As luvas não são necessárias no contato social, tomada do histórico do paciente, medição da pressão sangüínea ou procedimentos similares. Luvas não estéreis são adequadas para exames e outros procedimentos não cirúrgicos; luvas estéreis devem ser usadas para os procedimentos cirúrgicos.

USO

  • Antes do atendimento de cada paciente, o profissional deve lavar suas mãos e colocar novas luvas; após o tratamento de cada paciente ou antes de deixar a clínica, o profissional deve remover e descartar as luvas e lavar as mãos. 

  • Tanto as luvas para procedimento como as luvas cirúrgicas NÃO devem ser lavadas antes do uso, NEM lavadas, desinfetadas ou esterilizadas para reutilização. 

  • Não se recomenda a lavagem das luvas, pois pode causar a penetração de líquidos através de furos indetectáveis. 

  • A deterioração das luvas pode ser causada por agentes desinfetantes, óleos, loções oleosas e tratamentos térmicos, como a autoclavação. 

  • A lavagem das luvas com antissépticos aumenta tanto o tamanho como o número de orifícios nas luvas e remove o revestimento externo da maioria das luvas comerciais. 

  • As luvas de látex para exame não foram formuladas para resistir a exposição prolongada às secreções, podendo ficar comprometidas durante procedimentos de longa duração.

TIPOS

As luvas estão disponíveis, no comércio, em 5 tipos: 

  • luvas cirúrgicas de látex estéreis; 

  • luvas descartáveis de látex; 

  • luvas descartáveis de vinil; 

  • Sobre-luvas de PVC; 

  • luvas para limpeza geral de borracha grossa.

NORMAS NA UTILIZAÇÃO

  • As luvas NÃO devem ser utilizadas fora das áreas de tratamento. 

  • As luvas devem ser trocadas entre os tratamentos de diferentes pacientes. 

  • A parte externa das luvas NÃO deve ser tocada na sua remoção. 

  • As luvas devem ser checadas quanto a presença de rasgos ou furos antes e depois de colocadas, devendo ser trocadas, caso isso ocorra. 

  • Se as luvas se esgarçarem ou rasgarem durante o tratamento de um paciente, devem ser removidas e eliminadas, lavando-se as mãos antes de reenluvá-las. 

  • Se ocorrerem acidentes com instrumentos pérfuro-cortantes, as luvas devem ser removidas e eliminadas, as mãos devem ser lavadas e o acidente comunicado. 

  • Superfícies ou objetos fora do campo operatório NÃO podem ser tocados por luvas usadas no tratamento do paciente. Recomenda-se a utilização de sobre-luvas ou pinças esterilizadas. 

  • Em procedimentos cirúrgicos demorados ou com sangramento intenso, está indicado o uso de dois pares de luvas. 

  • Luvas usadas não devem ser lavadas ou reutilizadas.

TÉCNICA PARA A COLOCAÇÃO DAS LUVAS ESTERILIZADAS

  • Colocar o pacote sobre uma mesa ou superfície lisa, abrindo-o sem contaminá-lo. Expor as luvas de modo que os punhos fiquem voltados para si. 

  • Retirar a luva esquerda (E) com a mão direita, pela dobra do punho. Levantá-la, mantendo-a longe do corpo, com os dedos da luva para baixo. Introduzir a mão esquerda, tocando apenas a dobra do punho. 

  • Introduzir os dedos da mão esquerda enluvada sob a dobra do punho da luva direita (D). Calçar a luva direita, desfazendo a seguir a dobra até cobrir o punho da manga do avental. 

  • Colocar os dedos da mão D enluvada na dobra do punho da luva E, repetindo o procedimento acima descrito. 

  • Ajustar os dedos de ambas as mãos. 

  • Após o uso, retirar as luvas puxando a primeira pelo lado externo do punho, e a segunda pelo lado interno.

 Luva

SEQUÊNCIA DE COLOCAÇÃO DAS LUVAS ESTERILIZADAS

Luva A Luva B Luva C
Luva D Luva E Luva F
Luva G Luva H Luva I
Luva J Luva K Luva L

9.1.2 - MÁSCARAS

Durante o tratamento de qualquer paciente, deve ser usada máscara na face para proteger as mucosas nasais e bucais da exposição ao sangue e saliva. A máscara deverá ser descartável e apresentar camada dupla ou tripla, para filtração eficiente.

NORMAS PARA A UTILIZAÇÃO

  • As máscaras devem ser colocadas após o gorro e antes dos óculos de proteção. 

  • As máscaras devem adaptar-se confortavelmente à face, sem tocar lábios e narinas. 

  • Não devem ser ajustadas ou tocadas durante os procedimentos. 

  • Devem ser trocadas entre os pacientes e sempre que se tornarem úmidas, quando dos procedimentos geradores de aerossóis ou respingos, o que diminui sua eficiência. 

  • Não devem ser usadas fora da área de atendimento, nem ficar penduradas no pescoço. 

  • Devem ser descartadas após o uso. 

  • As máscaras devem ser removidas enquanto o profissional estiver com luvas. Nunca com as mãos nuas. 

  • Para sua remoção, as máscaras devem ser manuseadas o mínimo possível e somente pelos bordos ou cordéis, tendo em vista a pesada contaminação. 

  • O uso de protetores faciais de plástico NÃO exclui a necessidade da utilização das máscaras. 

  • Máscaras e óculos de proteção não são necessários no contato social, tomada da história clínica, medição da pressão arterial ou procedimentos semelhantes.

9.1.3 - ÓCULOS DE PROTEÇÃO

NORMAS PARA A UTILIZAÇÃO

  • Óculos de proteção com vedação lateral ou protetores faciais de plástico, devem ser usados durante o tratamento de qualquer paciente, para proteção ocular contra acidentes ocupacionais (partículas advindas de restaurações, placa dentária, polimento) e contaminação proveniente de aerosóis ou respingos de sangue e saliva. 

  • Os óculos de proteção também devem ser usados quando necessário no laboratório, na desinfecção de superfícies e manipulação de instrumentos na área de lavagem. 

  • Óculos e protetores faciais não devem ser utilizados fora da área de trabalho.

CUIDADOS

Devem ser lavados e desinfetados quando apresentarem sujidade.

9.1.4 - AVENTAIS

Sempre que houver possibilidade de sujar as roupas com sangue ou outros fluidos orgânicos, devem ser utilizadas vestes de proteção, como aventais reutilizáveis ou descartáveis, aventais para laboratório ou uniformes sobre elas. 

  • Avental não estéril - usado em procedimentos semi-críticos e não críticos, de preferência de cor clara, gola alta do tipo "gola de padre", com mangas que cubram a roupa e comprimento 3/4, mantido sempre abotoado. 

  • Avental estéril - usado em procedimentos críticos, vestido após o profissional estar com o EPI e ter realizado a degermação cirúrgica das mãos. Deve ter fechamento pelas costas, gola alta tipo "gola de padre", com comprimento cobrindo os joelhos e mangas longas com punho em elástico ou ribana.

NORMAS PARA A UTILIZAÇÃO

  • O avental fechado, com colarinho alto e mangas longas é o que oferece a maior proteção. 

  • Os aventais devem ser trocados pelo menos diariamente, ou sempre que contaminados por fluidos corpóreos. 

  • Os aventais utilizados devem ser retirados na própria clínica e, com cuidado, colocados em sacos de plástico, para o procedimento posterior (limpeza ou descarte). Com essa atitude, evita-se a veiculação de microrganismos da clínica para outros ambientes, inclusive o doméstico.

9.1.5 - GORROS

Os cabelos devem ser protegidos da contaminação através de aerossóis e gotículas de sangue e saliva, principalmente quando de procedimentos cirúrgicos, com a utilização de gorros descartáveis, que devem ser trocados quando houver sujidade visível.

9.2 - LAVAGEM E CUIDADO DAS MÃOS

Art.23 da Res.15, de 18-1-99 - Todo o estabelecimento de assistência odontológica deve ter lavatório com água corrente, de uso exclusivo para lavagem de mãos dos membros da equipe de saúde bucal. 

I - A lavagem de mãos é obrigatória para todos os componentes da equipe de saúde bucal; 

II - O lavatório deve contar com: a. dispositivo que dispense o contato de mãos com o volante da torneira ou do registro quando do fechamento da água; b. toalhas de papel descartáveis ou compressas estéreis; c. sabonete líquido; 

III - A limpeza e/ou descontaminação de artigos não deve ser realizada no mesmo lavatório para lavagem de mãos.

Luva M

MICROBIOTA DAS MÃOS

A superfície das mãos é densamente contaminada por microrganismos, distinguindo-se dois tipos de microbiota:

Microbiota transitória - constituída por contaminantes recentes adquiridos do ambiente e que ficam na pele por períodos limitados. A população microbiana é extremamente variável, compreendendo tanto microrganismos virulentos, como saprófitas. As bactérias potencialmente patogênicas estão virtualmente todas na superfície cutânea. A maioria desses microrganismos é facilmente removida, quer porque os microrganismos não sobrevivem, quer porque são retirados através da lavagem, juntamente com a sujidade.

Microbiota indígena - constituída pelos microrganismos residentes na pele, ou seja, que sobrevivem e se multiplicam na pele e podem ser repetidamente cultivados. São microrganismos como o S.epidermidis, micrococos e difteróides. Além desses microrganismos encontrados nas camadas mais superiores, há um reservatório de bactérias escondidas profundamente na pele. A microbiota residente superficial sai, com as lavagens, em quantidades regulares, enquanto as situadas profundamente, começam a aparecer nas lavagens, em número apreciável, apenas depois de minutos de fricção. Esta observação fortalece a convicção de que é impossível esterilizar a pele sem destruí-la.

Em resumo, a maioria das bactérias transitórias patogênicas e não patogênicas são removidas facilmente pela água e sabão. A microbiota restante é melhor atacada por antissépticos químicos adequados. Para máximo efeito, toda sujidade, gordura e qualquer outro material estranho deve ser removido primeiro com água e sabão, de modo a permitir ótimo contato entre o agente químico e as bactérias.

9.3 - LAVAGEM DAS MÃOS

Nenhuma outra medida de higiene pessoal tem impacto tão positivo na eliminação da infecção cruzada na clínica odontológica quanto a lavagem das mãos. A lavagem simples das mãos, ou lavagem básica das mãos, que consiste na fricção com água e sabão, é o processo que tem por finalidade remover a sujidade e a microbiota transitória. A água e o sabão removem os microrganismos transitórios adquiridos direta ou indiretamente do contato com o paciente; portanto, antes de procedimentos odontológicos de rotina, como exames e técnicas não cirúrgicas (procedimentos semi-críticos) e após procedimentos críticos, basta a lavagem com sabão líquido comum.

QUANDO REALIZAR:

  • no início do dia; 

  • antes e após o atendimento do paciente; 

  • antes de calçar as luvas e após removê-las; 

  • após tocar qualquer instrumento ou superfície contaminada; 

  • antes e após utilizar o banheiro; 

  • após tossir, espirrar ou assoar o nariz; 

  • ao término do dia de trabalho.

TÉCNICA PARA LAVAGEM DAS MÃOS

  • remover anéis, alianças, pulseiras, relógio, fitinhas etc.; 

  • umedecer as mãos e pulsos em água corrente; 

  • dispensar sabão líquido suficiente para cobrir mãos e pulsos; 

  • ensaboar as mãos. Limpar sob as unhas; 

  • esfregar o sabão em todas as áreas, com ênfase particular nas áreas ao redor das unhas e entre os dedos, por um mínimo de 15 segundos antes de enxaguar com água fria. Dar atenção especial à mão não dominante, para certificar-se de que ambas as mãos fiquem igualmente limpas. Obedecer a seqüência: 

    • - palmas das mãos; 

    • - dorso das mãos; 

    • - espaços entre os dedos; 

    • - polegar; 

    • - articulações; 

    • - unhas e pontas dos dedos; 

    • - punhos. 

  • repetir o passo anterior; 

  • secar completamente, utilizando toalhas de papel descartáveis.

            Lavagens das  Mãos

          (Stier et al)

Lave 1
Lave 2 Lave 3 Lave 4
Lave 5 Lave 6 Lave 7

 

9.4 - LAVAGEM E ANTISSEPSIA DAS MÃOS

É o processo utilizado para destruir ou remover microrganismos das mãos, utilizando antissépticos. Realizada antes de procedimentos cirúrgicos e de procedimentos de risco, utiliza antissépticos com detergente ou a lavagem com água e sabão, seguida de antisséptico. O procedimento é basicamente o mesmo descrito na lavagem das mãos.

SOLUÇÕES UTILIZADAS

  • solução de digluconato de clorexidina a 2 ou 4% com detergente; 

  • solução de PVPI 10%, com 1% de iodo livre, com detergente; 

  • solução de álcool etílico 77% (v/v), contendo 2% de glicerina.

9.5 - ANTISSEPSIA CIRÚRGICA DAS MÃOS

É o processo usado para: 

  • eliminar a microbiota transitória;

  • controlar a microbiota residente; 

  • manter efeito residual por 2 a 6 horas. 

O preparo cirúrgico ou degermação cirúrgica das mãos e antebraços (STIERS et al., 1995) deve ser realizado antes de cirurgias e procedimentos invasivos (procedimentos críticos). O tempo necessário para realizar o preparo cirúrgico varia com o tamanho da superfície; porém, para efeito de padronização, recomenda-se um período de 5 minutos. A escovação visa remover microrganismos e sujidades de locais de difícil acesso, como pregas cutâneas e unhas. Deve-se restringir a estes, pelo risco de causar lesões de pele que favoreçam a proliferação microbiana. As escovas devem ser de cerdas macias, descartáveis ou devidamente esterilizadas.

TÉCNICA

  • retirar jóias das mãos e antebraços; 

  • prender os cabelos e posicionar corretamente a máscara; 

  • abrir a torneira e regular a temperatura e fluxo da água; 

  • lavar as mãos e antebraços com solução degermante. Enxaguar; 

  • escovar as unhas durante 1 minuto com solução degermante. Desprezar a escova; 

  • friccionar mãos e antebraços com solução degermante por 4 minutos, seguindo uma seqüência sistematizada para atingir toda superfície (tempo total de 5 minutos); 

  • enxaguar abundantemente as mãos/antebraços com água corrente, deixando escorrer das mãos para os cotovelos; 

  • secar as mãos e antebraços com compressa estéril; 

  • vestir avental e luvas estéreis. 

Obs. Com a utilização de determinados produtos, como o digluconato de clorexidina, por exemplo, a escovação das mãos por 3 a 4 minutos é tão eficiente quanto a escovação por 5 minutos (AORN, 1995). 

Apesar de numerosos estudos, a técnica e o tempo requeridos para a escovação cirúrgica mais efetiva ainda estão sendo discutidos, não havendo um procedimento isolado que seja aceito por todos os cirurgiões.

9.6 - CUIDADOS COM AS MÃOS

  • Limpar sob as unhas. As unhas são áreas comuns para impacção de sangue e este sangue não é facilmente removido pelas técnicas de lavagem das mãos. Portanto, devem ser mantidas curtas e palitos de plástico ou de madeira podem ser utilizados para limpá-las. 

  • Em presença de lesões exsudativas ou dermatite úmida em qualquer área da pele exposta, evitar o contato com pacientes e o manejo de qualquer equipamento usado para o tratamento, até a resolução do problema. 

  • As mãos devem sempre ser secas completamente. A secagem adequada pode ser o primeiro passo na prevenção de irritações na pele. 

  • Escolher produto com pH semelhante ao da pele. Em pH 5,5-6,5, a camada córnea é um material forte, impermeável e liso. Em pH maior (8-9), exibido por alguns sabões, após múltiplas lavagens a alcalinidade altera o pH da superfície da pele, resultando em aspereza e vermelhidão, a queratina se torna fraca e a superfície rugosa e relativamente porosa. 

  • Sempre que realizar trabalho extra-clínica, que possa prejudicar as mãos, usar luvas domésticas de borracha. 

  • Proteger os cortes ou abrasões nas mãos ou antebraços com curativo impermeável antes do trabalho em consultório. 

  • Utilizar hidratantes ao final das atividades diárias.